Capítulo 31

A campainha toca cedo no próximo Sábado. Ela me acorda de um sono
profundo, mas eu imediatamente volto a dormir. Estou surpresa quando estou
sendo sacudida para acordar momentos depois. — Você está sendo solicitada lá
embaixo — Andy diz. — Agora.
Eu me sento. — Norah? Ela já foi colocada para fora?
— Calliope. É uma emergência.
Eu me arranco da cama. Uma emergência com Calliope só pode significar
uma coisa: uma emergência com o Cricket. Nós estávamos nos mandando
mensagem, então eu sei que ele planejava vir para casa antes de sair para as
Nacionais. Mas a luz dele estava desligada quando eu voltei do trabalho noite
passada. Eu não sabia dizer se ele estava lá. E se ele tentou vir para casa, e
alguma coisa aconteceu no caminho? — Oh Deus, oh Deus, oh Deus, oh Deus, oh
Deus. — Eu coloco um quimono e vou correndo para baixo, onde Calliope está
caminhando na nossa sala. Seu cabelo normalmente liso está sujo e desgrenhado,
e seu aspecto é ofegante e vermelho.
— Ele está bem? O que aconteceu? Onde ele está?
Calliope para. Ela ergue a cabeça, embaralhada e confusa. — Quem?
— CRICKET!
— Não. — Ela está momentaneamente jogada. — Não é o Cricket, sou eu.
É... Isso. — As mãos dela tremem quando ela estende uma sacola grande de
papel marrom.
Eu estou tão aliviada que nada está errado com o Cricket – e estou tão
chateada por achar que alguma coisa estava errada – que eu agarro a sacola um
pouco bruscamente. Eu espio dentro. Está cheia de gazes vermelhas rasgadas.
E então eu arquejo com entendimento. — Sua roupa!
Calliope rompe em lágrimas. — É para as Nacionais.
Eu cuidadosamente removo uma tira cintilante do tecido rasgado. — O que
aconteceu?
— Abby. Você pensaria que ela era um cachorro, não uma criança. Quando
a mamãe desceu para o café da manhã, ela a achou brincando com... Isso. Eu
tinha deixado minha roupa no andar de baixo para limpar. Quem iria pensar que
ela poderia rasgá-la? — O pânico de Calliope cresce. — Eu nem sabia que ela
era forte o bastante. E nós vamos sair amanhã! E minha costureira está fora da
cidade, e eu sei que você não suporta me ver, mas você é minha única
esperança. Você pode consertar isso a tempo?
Tão intrigante como essa ser sua única esperança, não tinha nenhuma
esperança a se ter. — Eu sinto muito — eu digo. — Mas eu não posso consertar
neste tempo. Está arruinada.
— Mas você TEM que fazer alguma coisa. Tem que ter alguma coisa que
você possa fazer!Eu levanto um monte de retalhos. — Eles mal são grandes o bastante para
cobrir o seu nariz. Se eu os costurar uns nos outros - mesmo se eu pudesse, o que
eu não posso - ficaria horrível. Você não seria capaz de competir nele.
— Por que você não pode usar uma das suas roupas antigas? — Nathan
interrompe.
Andy parece horrorizado. — Ela não pode fazer isso.
— Por que não? — Nathan pergunta. — Não é a roupa que ganha às
competições.
Calliope dá de ombros, e é quando eu me lembro da sua maldição do segundo
lugar. Ela já deve ter sido torturada pelos nervos, e então para adicionar isso no
topo? Eu realmente me sinto mal por ela. — Não — ela diz. A palavra mal sai. —
Eu não posso fazer isso. — Ela se vira para mim com seu corpo inteiro, um gesto
assustadoramente familiar. — Por favor.
Eu me sinto perdida. — Eu tenho que fazer uma nova. Não tem...
— Você poderia fazer uma nova? — ela pergunta desesperadamente.
— Não! — Eu digo. — Não tem tempo suficiente.
— Por favor — ela diz. — Por favor, Lola.
Estou me sentindo frenética. Eu quero que ela saiba que eu sou uma boa
pessoa, que eu não sou inútil, que eu mereço o irmão dela. — Certo. Certo — eu
repito. Todo mundo me encara enquanto eu encaro os farrapos. Se pelo menos
eu tivesse pedaços maiores para trabalhar. Estes são tão pequenos que nem
sequer fariam uma roupa inteira de novo.
Me dá um estalo. — Sobre aquelas roupas antigas...
Calliope grunhe.
— Não, escuta — eu digo. — Quantas você tem?
Ela faz outro gesto familiar, a boca aberta e o cenho franzido. A cara da
equação difícil. — Eu não sei. Muitas. Uma dúzia, pelo menos.
— Traga-as para cá.
— Elas não servem mais! Eu não posso usá-las, eu não vou...
—Você não vai precisar — eu reasseguro a ela. — Nós vamos usar as partes
para fazer alguma coisa nova.
Ela está na beira da histeria de novo. — Você vai me remendar?
Mas eu me sinto calma agora que tenho um plano. — Eu não vou te
remendar. Eu vou te renovar.
Ela volta em cinco minutos, e ela volta com... O Cricket. Seus braços estão
amontoados com tecido elástico e miçangas brilhantes. O cabelo dele ainda está
despenteado do sono, e ele não está usando suas pulseiras. Os pulsos deles
parecem nus. Nossos olhos se encontram, e seus pensamentos estão tão expostos
quanto os pulsos: Gratidão por estar ajudando a irmã dele e a nítida dor da
saudade.
A dor é recíproca.Eu os guio para o andar de cima para o meu quarto. Cricket hesita no fundo,
incerto se ele tem permissão para subir. Andy dá uma cutucada nas costas dele,
e eu fico aliviada. — Nós definitivamente vamos encontrar alguma coisa em
tudo isso — eu digo a Calliope.
Ela ainda está no canto. — Eu não consigo acreditar que minha sobrinha
estúpida fez isso comigo.
Meus músculos faciais se contraem, mas eu diria a mesma coisa se estivesse
no lugar dela. — Vamos espalhar as roupas e ver o que temos.
— Espalhá-las aonde?
Eu quase perco a calma, quando olho para o meu chão e percebo que ela tem
razão. — Oh. Certo. — Eu empurro as pilhas de sapatos e roupas descartadas
para os cantos, e Andy e Cricket se juntam a mim. Nathan espera na entrada,
contemplando a situação - e Cricket - cautelosamente. Quando meu chão está
limpo o bastante, nós estendemos as roupas dela.
Todo mundo encara a dispersão. É um pouco impressionante.
— Qual é a sua música? — Andy pergunta.
Nossas cabeças estalam para olhar para ele.
— O quê? — Ele dá de ombros. — Nós precisamos saber com que música
ela vai patinar antes que a Lo possa desenhar a roupa certa. Qual é a inspiração
dela?
Eu sorrio. — Ele está certo. Com que música você vai patinar, Calliope?
— É uma seleção da edição de Romeu e Julieta de 1968.
— Não tenho nem idéia de como é. — Eu aponto para o meu laptop. —Faça
o download dela.
— Eu posso fazer melhor do que isso. — Ela senta na minha cadeira e digita
seu próprio nome em um site de busca. Uma das primeiras opções é um vídeo da
sua última competição. — Assista isso.
Nós nos juntamos ao redor do meu computador. A música é assombrosa e
romântica. Carregada de drama e tensão, ela sucumbe em sofrimento, e termina
com um poderoso crescendo em redenção. É linda. Calliope está linda. Faz um
tempo desde que eu a vi se apresentar, e eu não tinha idéia do que ela tinha se
tornado. Ou tinha esquecido.
Ou eu me forcei a esquecer.
Calliope se move com paixão, graça, e confiança. Ela é uma bailarina de
primeira. E não é só o jeito que ela patina - são as expressões no rosto dela, que
ela carrega nos braços, mãos, dedos. Ela representa cada emoção da música. Ela
sente cada emoção da música. Não é de admirar que o Cricket acredite na irmã
dele. Não é de admirar que ele tenha sacrificado tanto da sua própria vida para
vê-la ser bem sucedida. Ela é extraoridinária.
O clipe acaba, e todo mundo está em silêncio. Até o Nathan está admirado. E
eu estou preenchida pela sensação esmagadora da presença de Calliope - seupoder, sua beleza - no quarto.
E então... Estou ciente da presença de outra pessoa.
Cricket está atrás de mim. O mísero toque de um dedo contra as costas do
meu quimono de seda. Eu fecho os olhos. Eu entendo a compulsão dele, sua
necessidade de tocar. Enquanto meus pais explodem em parabenizar a Calliope,
eu deslizo uma mão para minhas costas. Eu sinto ele se afastar com a surpresa,
mas eu encontro a mão dele, e a pego na minha. E eu afago a pele suave do
centro da sua palma. Só uma vez.
Ele não faz nenhum som. Mas ele está parado, tão parado.
Eu a deixo cair, e de repente a minha mão está na dele. Ele repete o ato de
volta. Um dedo, lentamente, descendo pelo centro da minha palma.
Eu não consigo ficar em silêncio. Eu arquejo.
É o mesmo momento em que a Sra. Bell irrompe no meu quarto, e,
agradecidamente, todo mundo se vira para ela e não para mim. Todo mundo
exceto o Cricket. O peso do olhar fixo dele contra o meu corpo é intenso e
pesado.
— Qual o progresso? — Sra. Bell pergunta.
Calliope suspira. — Nós acabamos de começar.
Eu salto para frente, tentando sacudir para longe o que tem que ser o
sentimento mais inapropriado no mundo para se ter quando três dos nossos quatro
pais estão presentes. — Oi, Sra. Bell — eu digo. — É bom vê-la de novo.
Ela coloca seu cabelo curto atrás das orelhas e se lança em uma discussão
calorosa com a Calliope. É como se eu nem existisse, e eu estou envergonhada
que isso machuque. Eu quero que ela goste de mim. Cricket fala pela primeira
vez desde que entrou na nossa casa. — Mãe, não é ótimo que a Lola esteja nos
ajudando? — Seus dedos agarram os próprios pulsos procurando por tiras de
borracha que não estão lá.
A Sra. Bell levanta o olhar, assustada com a intrusão embaraçosa dele, e
então me escrutina com um olhar severo. Eu a deixo desconfortável. Ela sabe
como eu me sinto a respeito do filho dela, ou como ele se sente a meu respeito.
Ou ambos. Eu queria estar usando alguma coisa respeitável. Minha aparência de
quem acabou de rolar da cama faz eu me sentir desprezível.
Não é assim que eu escolheria me apresentar para ela.
A Sra. Bell assente. — É sim. Obrigada. — E se vira de volta para a Calliope.
Cricket olha de relance para mim com vergonha, mas eu dou um sorriso
encorajador. Certo, então nós precisamos trabalhar nos nossos pais. Nós
chegaremos lá. Eu me viro para pegar um caderno, e é quando eu pego o Nathan
e Andy trocando um olhar particular. Não estou certa do que significa, mas,
talvez, contenha algum remorso.
Eu sinto uma onda de esperança. Força.
Eu dou um passo à frente para trabalhar, e as coisas ficam loucas. Todomundo tem uma opnião, e a Sra. Bell termina sendo até mais forte do que sua
filha. Há próxima meia hora é agitada enquanto discussões são tidas, tecido é
pisado, e roupas são rasgadas. Estou tentando medir Calliope quando o Andy se
choca comigo, e eu me esmago contra o canto pontudo da minha mesa.
— FORA — eu digo. — Todo mundo fora!
Eles congelam.
— Estou falando sério, todo mundo exceto a Calliope. Eu não posso trabalhar
desse jeito.
— VÃO — Calliope diz, e eles se dispersam. Mas Cricket se demora. Eu dou
a ele um sorriso quente. — Você, também.
Seu sorriso de volta é atordoado.
Nathan clareia a garganta do corredor. — Tecnicamente, você nem sequer
tem permissão para entrar no quarto da minha filha.
— Desculpe senhor. — Cricket enfia as mãos nos bolsos. — Me chame se
você precisar de alguma coisa. — Ele olha de relance para Calliope, mas seus
olhos retornam para os meus. — Se qualquer uma de vocês precisarem de
alguma coisa.
Ele sai, e eu estou sorrindo o caminho todo para as minhas unhas dos pés
pintadas brilhantes enquanto eu retomo a tirar as medidas dela. Ela pega um
curvex da minha mesa de trabalho e o bate contra sua mão. — Por que o meu
irmão não é permitido no seu quarto?
— Oh. Hum, eu não tenho permissão para ter nenhum garoto aqui dentro.
— Por favor. O Nathan pegou vocês dois fazendo alguma coisa? NÃO. Eca.
Não me conta.
Eu arranco a fita métrica da cintura dela um pouco brusco demais.
— Ai.
Eu não me desculpo. Termino meu trabalho em silêncio. Calliope clareia a
garganta enquanto eu escrevo as medidas que faltam. — Eu sinto muito — ela
diz. — É legal de a sua parte fazer isso por mim. Eu sei que eu não mereço. Eu
paro no meio do rabisco.
Ela bate com o meu curvex. — Você estava certa. Eu achei que ele sabia,
mas ele não sabia.
Estou confusa. — Sabia o quê?
— Que ele é importante para a nossa família. — Ela cruza os braços. —
Quando o Cricket foi aceito em Berkeley, foi quando eu decidi voltar para o meu
antigo técnico. Eu queria me mudar de volta para cá para poder ficar perto dele.
Nossos pais também.
Parece que a Calliope tem mais coisas para dizer, então eu espero que ela
continue. Ela se senta na minha cadeira. — Escuta, não é segredo que eu tornei a
vida da minha família difícil. Tem coisas que Cricket não teve ou não
experimentou por minha causa. E eu também não as tive, e eu odiei isso, mas foiminha escolha. Ele não teve escolha. E ele aceitou tudo com essa... Exuberância
e natureza boa. Teria sido impossível para a nossa família ficar junta se nós não
tivéssemos o Cricket fazendo a parte mais difícil. Mantendo-nos felizes. — Ela
levantou os olhos para encontrar os meus. — Eu quero que você saiba que eu me
sinto terrível a respeito do que eu fiz com o meu irmão.
— Calliope... Eu não acho... Cricket não se sente desse jeito. Você sabe que
não.
— Você tem certeza? — Sua voz é surpresa. — Como você pode ter certeza?
— Eu tenho certeza. Ele ama você. Ele tem orgulho de você.
Ela fica em silêncio por um minuto. Ver uma pessoa tão forte lutar para se
manter inteira é de partir o coração. — Minha família deveria dizer a ele com
mais freqüência o quanto ele é extraordinário.
— Sim, ele é. E, sim, vocês deveriam.
— Ele acha que você também é. Ele sempre achou. — Calliope olha para
mim de novo. — Eu sinto muito ter sido tão ruim para você.
E eu estou muito atônita pela admissão dela para responder.
Ela descansa a mão na confusão de roupas ao lado dela. — Só me responda
uma pergunta. Meu irmão nunca superou você. Você o superou?
Eu engulo. — Existem algumas pessoas na vida que você não pode superar.
— Bom. — Calliope se levanta e me dá um sorriso cruel. — Mas quebra o
coração do Cricket? Eu quebro a sua cara.
Nós trabalhamos juntas por meia hora, escolhendo peças, jogando idéias para
lá e para cá. Ela sabe o que quer, mas eu estou satisfeita em descobrir que ela
respeita minha opinião. Nós decidimos por um modelo usando apenas suas
roupas pretas, e ela pegou os outros para levar para casa.
— Então cadê o seu vestido? — ela pergunta.
Eu não tenho idéia do que ela está falando. — Que vestido?
— O vestido da Maria Antonieta. Eu vi a sua pasta.
— Você o quê?
— Cricket estava carregando ela em uma das minhas competições,
praticamente acariciando a droga da coisa. Eu o provoquei impiedosamente, é
claro, mas... Era interessante. Você colocou muito trabalho naquelas páginas. Ele
disse que você colocou muito trabalho na coisa de verdade, também. — Ela olha
em volta do meu quarto. — Eu não achava que fosse possível esconder um
vestido de baile com a bunda gigante, mas aparentemente eu estava errada.
— Oh. Uh, não está aqui. Eu parei de trabalhar nele. Eu não vou ao baile.
— O quê? POR QUÊ? Você trabalhou nisso a metade do ano.
— É, mas... É estúpido, certo? Aparecer sozinha?
Ela olha para mim como se eu fosse uma idiota. — Então apareça com o
meu irmão.
Eu estou emocionada pela sugestão dela - permissão! - mas eu já tinhaconsiderado isso. — O baile é no próximo sábado. Ele ainda vai estar do outro
lado do país para nas Nacionais.
As Nacionais duram uma semana inteira. Sessões de treinamento, adequação
ao gelo e à pista de patinação, entrevistas com a mídia, dois programas, mais
uma apresentação adicional se ela ganhar medalha. Cricket vai estar com ela o
tempo inteiro para apoiá-la.
— Oh — ela diz.
— Além disso, é estúpido de qualquer forma. — Eu olho fixamente para as
notas da roupa dela, e eu puxo uma mecha de cabelo. — Você sabe grande baile.
Grande vestido. Qual o sentido?
— Lola. — Seu tom é monótono. — Não é estúpido querer ir a um baile. Não
é estúpido querer colocar um vestido bonito e se sentir bonita por uma noite. E
você não precisa de um par para isso.
Estou calada.
Ela balança a cabeça. — Se você não for então você é estúpida. E você não
merece meu irmão.

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